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15 de agosto de 2012

Verdade ou Consequência? (8)

A Midsummer Night's Dream

Nunca tinha lido nada de Shakespeare. Em minha defesa, devo dizer que a minha experiência com peças de teatro, nomeadamente "Felizmente há Luar" de Luís de Sttau Monteiro e "Look Back in Anger" de John Osborn não foi das melhores. Compreendo que tenha de haver livros de leitura obrigatória no ensino secundário (afinal é importante que os miúdos tenham hábitos de leitura, etc e blah blah), mas pessoalmente acho que darem-nos a ler este tipo de livros (e incluo os Maias, o Amor de Perdição e o Memorial do Convento do Saramago, que parece que é o livro que se lê hoje em dia em vez dos Maias ou da Aparição ou algo do género) é uma forma quase 100% efetiva de 1. fazer com que os miúdos detestem os livros e entrem na leitura (e saiam dela) a detestá-los e 2. Matar à nascença qualquer tipo de interesse que os já referidos miúdos possam ter pela leitura.

Mas enfim, isso é outro assunto que daria pano para mangas, mas que não é o assunto sobre o qual me vou pronunciar.

As peças de Shakespeare. Certo. Ora bem, não sou grandemente versada em literatura da época (século XVI). De facto, a única experiência que tive, que se pode comparar minimamente à leitura de uma peça de Shakespeare foi a leitura de uma peça de Gil Vicente na escola preparatória (será que ainda fazem destas hoje em dia? Mandar putos de 12 e 13 anos ler Gil Vicente?). Escusado será dizer que muito pouco me lembro do "Auto da Barca do Inferno", exceto que metia o Diabo e um Anjo e uma data de outras personagens.

Shakespeare, como se sabe, é um senhor muito conhecido atualmente e parece que também era na época. Escreveu uma data de peças de teatro que foram encenadas num teatro que parece, hoje é famoso (The Globe). A rainha Isabel I gostava muito de teatro, o teatro foi importante durante o seu reinado, etc e blah blah. Se virem o filme "A paixão de Shakespeare" vem lá tudo explicado.

Mesmo que nunca tenham lido nada de Shakespeare de certeza que já ouviram falar do Romeu e da Julieta, um dos casais fictícios mais famosos da História dos casais fictícios. Apaixonaram-se e tal, mas as famílias não os deixaram casar e não digo o resto porque é spoiler. De qualquer modo o Leonardo Di Caprio fez de Romeu numa adaptação cinematográfica desta peça por isso se não vos apetecer ler, podem ver o filme (diz que mete armas e gangues).

Com isto tudo já perceberam que sou quase totalmente ignorante em relação à obra de Shakespeare. Para além de conhecer os títulos das suas peças mais famosas (Romeu e Julieta, MacBeth e o Mercador de Veneza), pouco mais sei. Sei que ele era bem-parecido e que se apaixonou pela Gwyneth Paltrow (vi "A Paixão de Shakespeare" como toda a gente), no fim acabou por se casar com a Anne Hathaway (true story, vão ver à net) mas de resto... nada.

Então porquê ler Shakespeare, e esta peça (Sonho de uma Noite de Verão, em português) em particular? Bem, como sempre, começa tudo com outro livro. Ou mais especificamente com uma série. A série Iron Fey de Julie Kagawa. Nessa série há uma personagem chamada Robin Goodfellow. E de cada vez que ele é apresentado a alguém, esse alguém abre desmesuradamente os olhos e diz "O Robin Goodfellow? Puck? O que aparece em Sonho de uma Noite de Verão?" ao que o Robin responde inavariavelmente que sim senhora é ele mesmo. O famoso Puck.

Pois claro que tinha de ir ler a peça e ver como é que o Shakespeare caracterizava o famoso Puck.

E digo-vos; vale a pena ler Shakespeare. Especialmente se se tiver em conta a situação política e social da época. Segundo consegui apurar, Sonho de uma Noite de Verão é uma das peças mais "leves" deste autor, mas mesmo assim a irreverência da sua escrita é óbvia. Muito mesmo.

Scene from Midsummer Night's Dream: Titania and Bottom de Sir Edwin Landseer

Esta peça passa-se em Atenas, e tem como protagonistas um grupo de personagens muito distintas: Theseus, herói e rei; Demetrius e Lysander os protagonistas masculinos e Hermia e Helena as heroínas. E claro, as fadas: Oberon e Titania e o servo daquele, Puck. Para além disso temos uma troupe de actores. Todas estas personagens se vão ver envolvidas num mal-entendido de proporções épicas quando Puck aplica uma poção do amor que gera confusão pois Demetrius e Lysander, ambos apaixonados por Hermia ficam de repente loucos por Helena. Titania também é afectada e apaixona-se por um humano (um dos membros da troupe) burro (literalmente). Isto dá origem a muitos actos de parvoíce por parte de todos os envolvidos.

A peça tem um ambiente etéreo (enfim, mete fadas) que me agradou imenso, e involve montes de gente a dormir por todo o lado. Talvez a mensagem seja "antes de te comprometeres por amor, dorme 12 horas e pode ser que ganhes juízo acordes com uma nova perspectiva"? Quem sabe.

Não sei bem quais os temas retratados nesta peça. Li-a por diversão, por curiosidade. Posso talvez aventurar-me a dizer que o tema é basicamente as parvoíces e actos irreflectidos que cometemos e a que nos sujeitamos por amor. Pois não diz Puck:
"Lord, what fools these mortals be!"

Shakespeare escreve de forma humorística e inteligente; mesmo tendo em conta o facto de que é uma peça, cujo objetivo é ser representada, lê-se extremamente bem. Claro que me custou um pouco a entrar na leitura porque a linguagem é um pouco diferente daquilo a que estou habituada. Mas é uma leitura que recomendo a quem queira passar um bom bocado e queira ler sobre heroínas que demonstram mais carácter e força do que muitas das escritas por autoras do século XXI (o que é extremamente triste).

Posso até dizer que para além de Puck (que admite que a confusão por ele criada o diverte imenso), a minha personagem preferida é a Helena. Sim, ela rebaixa-se por amor a Demetrius, mas apenas nos seus termos. Não deixa que a gozem. É uma mulher forte. O seu amor impressionou até Oberon.

Gostaria imenso de ver esta peça, mas alas, enquanto tal oportunidade não surge posso apenas ler e recomendar a obra de Shakespeare. Afinal, "antigo" não é, de todo, sinónimo de "aborrecido".

Esta opinião foi escrita pela Slayra do blog Livros, Livros e mais Livros que, de repente e sem se aperceber, contribuiu para a temporada Shakespeariana e fez-me rir que nem perdida no trabalho quando recebi o seu texto, que me levou logo a imaginar o Shakespeare casado com a Catwoman, e o comentário "diria que estavam todos 'on speed' nesta peça se o speed já tivesse sido inventado." xD

2 de julho de 2012

Verdade ou Consequência? (7)

Lady Macbeth

Li esta peça há dois anos, por auto-recriação minha e como me foi dada a oportunidade de escrever sobre o tio Shakes através do convite da dona deste blog, foi mais ou menos fácil decidir-me sobre que peça iria escrever!

Macbeth, ou The Tragedy of Macbeth, é a peça mais curta de Shakespeare e é também a mais violenta, sangrenta e obscura que ele escreveu. Fala-nos de ambição desmedida, de traição, crueldade e culpa, com um ambiente sobrenatural que torna certos momentos da peça ainda mais tensos e obscuros. De forma resumida, Macbeth fala-nos de um homem, Macbeth, que está disposto a matar o rei da Escócia para lhe usurpar o trono. Consequentemente, Macbeth passa a ser um homem atormentado pela culpa dos seus actos e acaba como um homem completamente paranóico em relação a todos os que o rodeiam e tirânico. Contudo, houve uma personagem em particular que me impressionou em toda a peça: Lady Macbeth.

A primeira vez que ela aparece é no acto I, cena 5 e é nesta cena que ela faz talvez o seu discurso mais marcante e o discurso mais perturbador que eu já li. E para vos dar um cheirinho, aqui fica um pouco:

"Come, you spirits
That tend on mortal thoughts, unsex me here
And fill me, from the crown to the toe, top-full
Of direst cruelty. Make thick my blood,
Stop up th'access and passage to remorse,
[...]
Come to my woman's breasts,
And take my milk for gall, you murd'ring ministers,
Wherever in your sightless substances
You wait on nature's mischief."

"Unsex me"?! Bitch is crazy... Agora falando a sério, isto não é perturbador? Esta mulher, cheia de ambição desmedida, ainda mais vil que o seu marido, pede que lhe sejam retiradas todas as características que estão associadas às mulheres e que as tornam, supostamente, seres mais sensíveis e frágeis. Ela não quer ter qualquer qualidade que a possa levar a fraquejar. Quer, essencialmente, ser preenchida pela mais terrível crueldade. Lady Macbeth chega a questionar a masculinidade do marido sempre que a mente dele sente remorsos em relação a algo; ela domina-o, é impiedosa e no fim é a culpa e a visão de todos os seus actos que a levam à loucura e ao seu final trágico. Para a época, Lady Macbeth terá sido uma personagem algo polémica, uma vez que, sendo mulher, ela não tem um traço de feminilidade no que diz respeito às suas acções. Ela pede a um poder sobrenatural que lhe retire as características femininas porque se prepara para actos cruéis, associados ao masculino e, por isso, ela tem que cortar todos os laços que a ligam, mentalmente e emocionalmente, aos aspectos femininos. O sexo é algo físico, nascemos homens ou mulheres; mas o género é uma característica mental e, nesse aspecto, Lady Macbeth tem um pensamento mais associado ao masculino. Há críticos, inclusive, que a consideram a verdadeira instigadora de toda a violência na peça e, para mim, ela é a impulsionadora de todos os momentos cruciais da história. O que é que eu tenho a dizer sobre isto? Que a senhora Macbeth era uma mulher perturbada e que Shakespeare era um génio.

Nesta medida, acho que vale a pena referir aqui duas pinturas que ilustram o poder de Lady Macbeth tanto na peça como sobre o seu marido. A primeira é da autoria do pintor Henry Fuseli e intitula-se Garrick and Mrs. Pritchard in Macbeth (1812). Para dar um pouco de contexto, o momento em que se baseia esta pintura é retirado do acto II, cena 2 e diz assim:

Lady Macbeth: Go get some water,
And wash this filthy witness from your hand.
Why did you bring these daggers from the place?
They must lie there: go carry them, and smear
The sleepy grooms with blood.

Macbeth: I'll go no more:
I am afraid to think what I have done;
Look on't again I dare not.

Lady Macbeth: Infirm of purpose!
Give me the daggers."

Garrick and Mrs. Pritchard in Macbeth
de Henry Fuseli
Não vou fazer nenhuma análise académica sobre o quadro, mas é bastante claro que Lady Macbeth se encontra numa posição dominante e de poder, em oposição ao coitado do marido que parece ter medo da própria mulher e parece estar horrorizado com o acto que acabou de cometer, uma vez que as adagas estão ensanguentadas. O facto de parecerem duas figuras fantasmagóricas num fundo negro, penso que transmite a obscuridade da peça, o ambiente tenso e sobrenatural e os actos sangrentos que vão sendo cometidos durante a peça.

Ellen Terry as Lady Macbeth
de John Singer Sargent
O segundo quadro é de John Singer Sargent e intitula-se Ellen Terry as Lady Macbeth (1889). Ellen Terry foi uma actriz de teatro inglesa e que se tornou famosa por ser uma das melhores actrizes Shakespearianas, no século XIX. Neste quadro em particular, vemos Ellen Terry como Lady Macbeth. Quando vi este quadro lembrei-me imediatamente do discurso do "Unsex me here". Ela está altiva, imponente, o seu olhar parece em transe e está com a coroa nas suas mãos, símbolo da sua ambição pelo poder real. Acho que mais do que ser rainha, ela queria era ser rei e aqui, mais uma vez, se impõe a questão entre sexo e género. Um outro pormenor importante é o cabelo ruivo. O cabelo ruivo estava associado às bruxas, a mulheres sedentas de luxúria nas quais não se podia confiar por representarem uma ameaça aos homens. Não referi antes, mas Macbeth e a sua mulher tinham uma relação essencialmente sexual e era dessa forma que ela o convencia a actuar de determinada maneira. E aqui encaixa tudo, não encaixa?

Existem mais quadros que retractam esta peça e outras personagens também. Mas estes dois, para além dos quadros que retractam as três bruxas, foram os que mais me marcaram pela mulher que evocam, pela violência, crueldade e ambição associadas a ela. Confesso que em termos de adaptações de Macbeth para filme nunca vi nenhuma. Mas também, com tanta superstição associada a ela, não me espanto muito... Mas no youtube podem encontrar vídeos de representações teatrais de algumas cenas da peça, entre as quais contracenam Judy Dench e Sir Ian McKellen. Aqui fica a excepcional Judy Dench na já referida cena 5 do primeiro acto (no spoilers):



Este artigo foi escrito pela Diana do blog Papéis e Letras, que apoiou a temporada Shakespeariana, leu o Hamlet ao mesmo tempo que eu, está quase sempre disponível para falar sobre o tio Shakes (e sotaques britânicos, e homens britânicos, e espadas britânicas, e... acho que já perceberam a ideia) e já escreveu trabalhos sobre tudo e mais alguma coisa. :D

20 de junho de 2011

Verdade ou Consequência? (6)

Philippa Gregory

Fui desafiada pela Carla para participar em mais um "Verdade ou Consequência" e resolvi aceitar o desafio, tendo escolhido "Verdade".

Quem me conhece sabe que um dos meus géneros preferidos é o Romance Histórico, tendo como uma das minhas autoras de eleição Philippa Gregory e os seus livros sobre os Tudor. Quem é que não se lembra de ter falado na disciplina de História de Henrique VIII e as suas seis mulheres? Julgo que foi matéria do 9º ano e surgiu o bichinho de querer saber mais. No entanto, só muito mais tarde, é que li e fui vendo documentários sobre tal assunto.

Philippa Gregory é uma entusiasta de História, nomeadamente sobre o período Tudor, com livros que me fizeram tornar fã da autora. Ela consegue unir os factos históricos, as intrigas e os jogos políticos, com muito engenho, fazendo com que, nós leitores, sintamos que estamos a viver naquela época, mantendo sempre o nível de interesse na história, apesar da quantidade de páginas habituais nos seus livros. A corte dos Tudor, foi uma corte cheia de intrigas e de pessoas movidas pela ambição e poder, sendo o palco perfeito para um bom romance histórico.

A série Tudor é composta pelos seguintes livros, enunciados segundo a ordem cronológica de acontecimentos que difere da qual foi escrita:
  • Catarina, a Princesa Determinada
  • Duas Irmãs, Um Rei
  • A Herança Bolena
  • A Espia da Rainha
  • O Amante da Rainha
  • A Outra Rainha

Nos três primeiros livros, a história foca-se essencialmente sobre Henrique VIII e as suas mulheres, excepto Jane e Catarina Parr, que não têm protagonismo em nenhum dos livros. Philippa Gregory conseguiu captar o carácter de Henrique VIII, que sendo muito mimado, tornou-se um homem cruel, fazendo as leis conforme o seu humor.

Destes três primeiros livros, o meu preferido é o Catarina, a Princesa Determinada, que tendo sido o segundo livro que li da autora, serviu para consolidar a minha preferência. Em Catarina, a Princesa Determinada, conhecemos um pouco os seus pais, os Reis Católicos de Espanha (Aragão e Castela), a sua educação como princesa, bem como somos transportados para um mundo de odores e cores, em Alhambra. Ficamos a conhecer também a sua estadia em Inglaterra e todas as dificuldades que teve de enfrentar. Catarina foi uma mulher persistente, corajosa e também ambiciosa.

Em A Espia da Rainha, ao contrário dos restantes livros, a personagem é fictícia, no entanto, Philippa Gregory mostrou que consegue interligar perfeitamente os acontecimentos históricos dos reinados de Maria e Isabel Tudo, com uma história que, apesar de ser fruto de imaginação da escritora, poderia ter sido real.

O livro Amante da Rainha, tal como o título indica, foca-se bastante no romance entre Isabel e Robert Dudley, bem como a instabilidade política no início do reinado daquela.

Finalmente, em A Outra Rainha a personagem central é a Rainha Maria da Escócia. Esta história tornou-se interessante pelo facto de nos dar a conhecer a vida de Maria da Escócia, no entanto, a par com o anterior, apesar de manter o bom nível de detalhes históricos, achei que não estaria tão bom como os restantes.

No que respeita à série da Guerra dos Primos ou Guerra das Rosas, período anterior ao Tudor, ainda só estão publicados dois volumes: A Rainha Branca e A Rainha Vermelha. No entanto, estão previstos pelo menos mais 2 livros:
  • The Lady of the Rivers: Cuja personagem principal será Jacquetta, a mãe de Isabel Woodville (A Rainha Branca) e que se prevê que seja lançado, na versão original ainda durante 2011;
  • The White Princess: Isabel York, filha de Isabel Woodville e Eduardo IV, mulher de Henrique VII e mãe de Henrique VIII.

Em A Rainha Branca temos a história de Isabel Woodville, uma jovem viúva plebeia, que se apaixona e casa com o recente Rei Eduardo de Iorque. Um livro que para além de focar a relação entre Isabel e Eduardo, do seu relacionamento com a família, descreve-nos de forma entusiasta as batalhas e conspirações em torno das personagens e que influenciam o destino destas. Foi também agradável a forma como a autora misturou os factos históricos, com a lenda de Melusina, através das pragas e pequenos feitiços que Isabel lançava aos seus inimigos.

No segundo livro da série, A Rainha Vermelha é Margarida Beaufort, descendente da casa de Lancaster, uma mulher totalmente movida pela ambição de retirar os Iorques do trono, colocando o seu filho – Henrique Tudor – no lugar destes.

A acção temporal dos dois livros, decorre praticamente em paralelo, o que nos permite ter as duas perspectivas de episódios comuns.

Muito interessante perceber todas as movimentações e interesses políticos à volta de um trono, bem como a forma como os Tudors chegaram ao poder.

Quem gosta de romance histórico e de histórias cheias de intrigas, Philippa Gregory e os seus livros da série Tudor são uma boa opção de leitura.

Este artigo foi escrito pela Tita, do blog O Prazer das Coisas, que deste modo suscitou a minha curiosidade em ler os livros desta autora. ;)

23 de maio de 2011

Verdade ou Consequência? (5)

Os Pré-Rafaelitas

Mais um mês, mais uma desafiada para o Verdade ou Consequência! Decidi aceitar este desafio e, depois de se ter escolhido “Verdade”, ficou decidido eu escrever um texto sobre os Pré-Rafaelitas (claro, a Carla teve um dedinho nisto também hehehe). Como estava a fazer um trabalho no contexto desse movimento artístico, achei que podia unir o útil ao agradável.

Estamos na época das revoluções: Revolução Industrial, Revolução Francesa, Revolução Americana. Estamos, por isso, numa época de avanços tecnológicos, de desenvolvimento industrial mas, também, numa época de mudança de mentalidades, de revoluções artísticas e no reinado da monarca que viria a sentar-se no trono inglês por mais tempo: a Rainha Vitória.

Proserpine de Dante Gabriel Rossetti
A Irmandade Pré-Rafaelita foi formada em 1848 e os seus fundadores foram três: Dante Gabriel Rossetti, William Holman Hunt e John Everett Millais. Todos pintores, embora Rossetti também fosse poeta. O principal objectivo deste grupo era resgatar a arte da trivialidade em que eles consideravam ela ter caído, considerando que a tradição académica tinha tornado a pintura numa simples prática de determinadas convenções pictóricas cansativas. Assim, romperam com a Academia, neste caso a Royal Academy de Londres, fundada em 1768 e tornaram-se pintores à margem do que era produzido na altura.

Mas de onde vem o nome Pré-Rafaelita? Bom, estes pintores não queriam seguir o modelo clássico estabelecido na arte ocidental por Rafael e Miguel Ângelo. Queriam reportar-se a uma época anterior a Rafael (que nasceu em 1483 e morreu em 1520), ao período da Idade Média, recuperando, em termos de técnica, o uso das cores vivas. Neste sentido, os Pré-Rafaelitas usavam uma tela de fundo branco, tornando as cores mais luminosas, em vez da tela de fundo negro, como era habitual na época.

Deste modo, as principais características da pintura Pré-Rafaelita eram a maior atenção ao detalhe, a luminosidade da cor e o retrato da natureza de forma fiel, recusando o embelezamento do que era retratado. Além disso, como pretendiam reportar-se a uma época anterior a Rafael, os temas das suas pinturas variavam desde a mitologia clássica greco-romana, a lendas medievais como a lenda arturiana, a temas religiosos, ou simplesmente ao retrato da vida quotidiana vitoriana mas dando-lhe uma “roupagem” medieval.

Considerando tudo isto, há ainda a discussão se o movimento Pré-Rafaelita será um movimento de vanguarda ou não. Por um lado, rompeu com as convenções da época mas, por outro, foi recuperar outras que já tinham existido. A meu ver, foram um movimento de vanguarda porque, para além de romperem com o que estava estabelecido, conseguiram retratar a sua sociedade recorrendo a motivos medievais. E é isso que eu acho tão interessante neste movimento: o recorrer-se a uma época passada para retratar aquilo que acontece na contemporaneidade.

Os Pré-Rafaelitas tinham uma grande ligação com a literatura. A maior parte dos pintores era, também, escritor, sendo que os seus escritos eram publicados regularmente num periódico criado por eles próprios intitulado “The Germ”. Para além disso, eram profundamente influenciados pela literatura do Romantismo, Shakespeare e textos ligados à lenda arturiana, principalmente de Sir Thomas Malory e da sua obra Le Morte d’Arthur, publicado pela primeira vez em 1485. Por sua vez, outro escritor contemporâneo dos Pré-Rafaelitas e que os foi influenciar também, Alfred Lord Tennyson baseou-se nessa mesma obra de Malory para escrever o seu Idylls of the King.

The Lady of Shalott de William Holman Hunt
Como tal, vários pintores retratavam cenas ou personagens da literatura e posso dar-vos alguns exemplos: Ophelia, de John Everett Millais (inspirado na personagem de Hamlet, de Shakespeare); The Beguiling of Merlin, de Edward Burne-Jones (retratando Merlin e Vivien, da lenda arturiana); La Belle Dame Sans Merci, de John William Waterhouse (motivo bastante popular entre os Pré-Rafaelitas, inspirado no poema com o mesmo nome, de John Keats); ou The Lady of Shalott, de William Holman Hunt (tema também muito retratado por este grupo, inspirado no poema de Alfred Lord Tennyson). Há, claro, muitas outras que eu podia enumerar, mas foram estas que me ficaram na memória e as que gostei mais.

Posto isto, penso que só me falta mencionar uma coisa, nesta espécie de introdução aos Pré-Rafaelitas: a mulher. Primeiro, de notar que havia duas mulheres pintoras neste grupo, muito bem aceites entre todos. Uma delas era Cristina Rossetti, irmã de Dante Gabriel Rossetti, e Elizabeth Siddal, que também serviu de modelo a Dante Rossetti. Para além disso, a mulher começou a ser retratada de forma diferente por estes pintores: era voluptuosa, vestia roupas largas e tinha cabelos soltos, sendo morena ou ruiva, algo que fugia aos padrões de beleza da época.

Assim, a mulher era retratada, essencialmente, de duas maneiras: como a mulher idealizada, contemplativa, virada sobre si própria ou como uma mulher vilificada, maléfica, feiticeira, “femme fatale”. Exemplos destas duas representações: Mariana, de John Everett Millais; e Medea, de Frederick Sandys, respectivamente. Esta obsessão pela mulher e, particularmente, para a “femme fatale”, deveu-se ao aumento de divórcios, do adultério, da prostituição, da luta pelos direitos da mulher, que veio pôr em causa a concepção comum de que a mulher era um ser sexualmente frígido e inocente. Deste modo, as mulheres começaram a ser consideradas tão susceptíveis aos apetites sexuais como os homens, provocando um questionamento sobre qual dos sexos seria o dominante.

Para quem quiser saber mais, deixo-vos aqui alguns sites que vos podem fornecer mais informações sobre os Pré-Rafaelitas.



Este artigo foi escrito pela Diana, do blog Papéis e Letras, que assim respondeu a uma curiosidade minha. ;)

18 de abril de 2011

Verdade ou Consequência? (4)

O Leopardo

Aceitei o desafio da Carla para a rubrica “Verdade ou Consequência”. Escolhi Consequência, sendo o livro escolhido, dentre aqueles que tenho para ler, O Leopardo de Tomasi di Lampedusa.

Publicado postumamente e escrito dois antes do seu falecimento, O Leopardo é considerado um clássico da literatura e tornado mundialmente conhecido em 1963 quando Visconti realizou um filme com o mesmo nome.

Logo nas primeira páginas compreendemos que este livro estava, desde o início, destinado à galeria dos clássicos devido à escrita do autor e também porque consegue estratificar as várias camadas culturais e sociais da Sicília, assim como é exímio na explanação de sensações. Ou seja, logo nas primeiras páginas, sentimos a força e o carácter da Sicília. O cheiro da terra, os sons que povoam o ambiente. Uma escrita irónica, extremamente visual que me agradou imenso, pois teve o condão de me fazer sentir parte da história, interagir com os personagens.

A nível estrutural, a história é-nos contada por um narrador omnipresente. Nunca saberemos de quem se trata, mas é em jeito de memória nostálgica que ele nos vai apresentando a história. Por vezes sentimos que o narrador é o próprio Lampedusa, pois sabe-se que este romance é algo biográfico, até porque os cenários criados pelo autor são baseados nos cenários da sua infância.

Escrito em 1956, o autor situa-nos na Sicília em 1860.

Don Fabrízio, O Leopardo (devido ao brasão da família) é o chefe de uma velha e respeitada família aristocrata.

Uma época de transição social (na altura a Itália era composta por pequenos principados e mini-repúblicas), a obra retracta essa transição que levou à unificação da Itália sob o comando de Garibaldi.

É este o principal pólo de interesse do romance. Lampedusa dá-nos uma visão das movimentações das forças de Garibaldi, em simultâneo que explora a visão e perspectiva da velha burguesia ainda a viver debaixo de leis feudais e caracterizada pela família de D. Fabrízio, que olha para esta transição de uma forma pessimista mas ao mesmo tempo esperançosa, no entanto surpreendeu-me a atitude passiva com que essa classe reagiu a essa transição.

Para além de D. Fabrízio, há outro personagem que gostei. O jovem sobrinho e protegido de Fabrízio, Tancredi. Tancredi representa, pelo menos de início, os ideais dos “camisas vermelhas” de Garibaldi. Tancredi representa a mudança, a força da nova nação, os ideais revolucionários assim como e ao casar com a filha de um latifundiário, simboliza a rotura com o passado.

Uma obra que merece ser analisada com muito cuidado, não só porque nos permite compreender o nascimento da Itália (há pouco mais de 100 anos), como também por conter mensagens e críticas a outros sectores da sociedade italiana, tal como a igreja e o regime fascista vivido por Lampedusa.

Pessoalmente não foi um romance que me deixe saudades e que um dia pense em reler.

Enfadonho na sua maior parte, é uma obra que deve interessar a curiosos e estudiosos da temática central, mas enquanto entretenimento, honestamente, penso que o tempo a ler pode ser melhor passado.

Passado na sua maior parte entre quatro paredes, com diálogos por vezes sensaborões, gostei de facto da ironia do autor e da estrutura do romance, mas confesso que me aborreceu a história e, embora tenha aprendido sobre os acontecimentos da época, pouco ou nada me diverti.


Opinião escrita pelo Iceman, do blog nlivros, a quem agradeço a disponibilidade para participar. :)

21 de março de 2011

Verdade ou Consequência? (3)

A Fantasia Urbana

Quem me conhece minimamente (na verdade, basta ler as críticas do meu blogue, eheh) sabe que um dos meus géneros literários favoritos é a Fantasia Urbana. Apesar de ler outro tipo de livros, o escapismo proporcionado por este género levou-me a adquirir e ler muitos livros relacionados com vampiros, lobisomens e outras criaturas sobrenaturais. É também a razão pela qual escrevo este pequeno artigo, para a rubrica “Verdade ou Consequência” do blogue Este meu Cantinho. Espero, com aquele, dar a conhecer o género a quem ainda não conhece, quem sabe arranjar mais alguns fãs e, ao mesmo tempo, esclarecer estes novos eventuais leitores sobre as diferenças dentro da Fantasia Urbana e como melhor escolher uma obra para leitura.

Penso que a primeira pergunta que se coloca é, o que é “Fantasia Urbana”? Que livros se inserem dentro do género?

A Fantasia Urbana é um subgénero da Fantasia Contemporânea. A principal característica que a diferencia da Fantasia dita regular (da qual os exemplos mais famosos são a obra de Tolkien) são os locais onde a acção decorre; tal como o nome indica, a Fantasia Urbana decorre no mundo real, mais especificamente em ambientes urbanos, onde o autor insere elementos do fantástico (de magia a criaturas sobrenaturais). Outros subgéneros da fantasia como o Romance Paranormal, a Fantasia Histórica e o Steampunk podem utilizar também esta ‘fórmula’ para a construção da história; no entanto não se deve confundir qualquer dos géneros acima mencionados com a Fantasia Urbana, pois se o “setting” é semelhante, existem também diferenças cruciais de que falarei mais adiante.

Apesar de apenas nos últimos anos ter ganho uma popularidade espantosa, a Fantasia Urbana já existe há bastante tempo no ‘panorama’ literário. Na verdade, se utilizarmos apenas o conceito acima indicado para definir obras relacionadas com o género, podemos apontar “Drácula” de Bram Stoker (1897) como uma das primeiras obras de Fantasia Urbana alguma vez escritas. Claro que, como já antes mencionei, não é apenas o local onde decorre a acção que define a Fantasia Urbana; outros factores como a sociedade alternativa (que reconhece, geralmente a existência de magia e/ou criaturas sobrenaturais) e o mistério geralmente associado a este tipo de livros também são parte intrínseca do género e “Drácula” não segue especificamente todas estas linhas.

A obra de Charles de Lint, no entanto, segue. O seu livro “Moonheart” (1984) é considerado uma das primeiras obras de Fantasia Urbana, se não contarmos “Entrevista com o Vampiro” de Anne Rice, que foi publicado em 1976 (no entanto, o segundo livro de Rice, “O Vampiro Lestat” só viria a surgir quase dez anos mais tarde, em 1985). De Lint viu publicadas muitas das suas outras obras do género durante as décadas de 80, 90 e mesmo já no século XXI (“Widdershins” – 2006). Mas este autor não esteve sozinho no mundo da Fantasia Urbana; apesar de ser um dos primeiros a escrever neste género, outros se seguiram. Mercedes Lackey aclamada autora de Fantasia escreveu uma trilogia sobre uma bruxa americana (Diana Tregarde) entre 1989 e 1991; Tanya Huff escreveu uma série sobre uma detective e o seu parceiro vampiro que consiste de seis livros (a série Vicki Nelson ou “Blood Series”) entre 1991 e 1997; Também L.J. Smith começou a escrever as suas séries de vampiros para jovens adultos (“Os Diários do Vampiro” e “O Mundo da Noite”) nos anos 90, o que fez dela uma espécie de pioneira na literatura paranormal juvenil; e Laurell K. Hamilton iniciou em 1993 a sua série “Anita Blake, Vampire Hunter” que conta hoje com mais de 15 livros e ainda continua a ser publicada.

Mas foi com a série de televisão “Buffy, a caçadora de Vampiros” (1997 a 2003) que o género ganhou vida. Buffy foi um sucesso instantâneo e prolongou-se por diversas temporadas. Em 1997 seria também publicado o primeiro livro de Harry Potter, que pode ser inserido, com algumas reservas, no género da Fantasia Urbana. O sucesso literário da série de J.K. Rowling e o de Buffy, atirou para a ribalta as séries acima listadas, especialmente a de Anita Blake. As fileiras de leitores da Fantasia Urbana engrossaram-se e exigiram mais livros, mais séries e maior diversidade. Em 2001 surge o primeiro livro da série “Sangue Fresco” de Charlaine Harris, um dos muitos exemplos da resposta do mundo editorial aos clamores do público. Em 2005 saía “Twilight” (“Crepúsculo”) de Stephenie Meyer que catapultou para a fama o Romance Paranormal juvenil e abriu todo um novo mercado – o da literatura paranormal para jovens – que foi rapidamente inundado com obras de cariz semelhante como “Hush, Hush”, “Anjo Caído” ou “Eternidade”.

Poderia listar muitas outras séries, tanto juvenis como para os mais adultos, mas neste momento este mercado encontra-se tão saturado que a lista teria muitas páginas. Todos os meses são publicadas nos Estados Unidos, novas ofertas dentro do género da Fantasia Urbana e dos seus géneros “irmãos” o Romance Paranormal (que geralmente tem as mesmas características da fantasia urbana, mas centra-se mais no romance do que na acção; os livros de Sherrilyn Kenyon e Kresley Cole são exemplos) e o Steampunk (cuja acção se situa em épocas passadas, geralmente no século XIX ou meados do século XX e onde assistimos a uma evolução alternativa da sociedade; muitas vezes criaturas sobrenaturais como vampiros estão presentes. As obras Gail Carriger e Cherie Priest são bons exemplos de Steampunk que entram na esfera da Fantasia Urbana).

Esta diversidade de livros com a sua multitude de enredos e uso criativo de elementos fantásticos faz da Fantasia Urbana o género perfeito para aqueles que gostam de leituras escapistas e imaginativas mas que se sentem entediados com os enredos reciclados da Fantasia Épica. Elfos, donzelas, espadas e sociedades medievais são substituídas por caracterizações diversas de vampiros, lobisomens e fadas e muitas vezes torna-se interessante saber o que inventarão os autores para tornarem original o seu livro num género que, como já disse, se encontra saturado. A possibilidade de viajar para mundos tão diferentes mas ao mesmo tempo tão parecidos com o nosso é a razão pela qual recomendo a Fantasia Urbana.

Fontes de Pesquisa:

O primeiro artigo dentro da categoria Verdade foi escrito pela Slayra, do blog Livros, Livros e mais Livros, que desta forma respondeu a um repto que lhe havia feito. :D

21 de fevereiro de 2011

Verdade ou Consequência? (2)

A Casa das Sete Mulheres

Depois da Célia do Estante de Livros, desta vez fui eu a desafiada a escolher “Verdade ou Consequência”. Escolhi Consequência, ficando assim “intimada” a ler um livro e escrever a minha opinião. A WhiteLady sugeriu-me o tema História, e como tenho na minha pilha muitos romances históricos o difícil foi escolher. O recém-adquirido (mas desejado há muito) A Casa das Sete Mulheres, de Leticia Wierzchowski, foi o escolhido.

Este livro retrata um período da História do Brasil que ficou conhecida como a Revolução Farroupilha, de uma perspectiva muito feminina. O descontentamento dos fazendeiros do Rio Grande do Sul, província do Império do Brasil, relativamente ao preço da carne e à escravatura negra, desencadeia uma revolta militar liderada pelo General Bento Gonçalves da Silva e com o apoio de outros militares, com o objectivo a deposição do Governador. Essa revolta evoluiu para uma Revolução anti-império, e através de uma série de acontecimentos e batalhas é proclamada a República do Rio Grande do Sul. Uma guerra entre Republicanos e Imperiais instala-se e parece não ter fim, que ficou conhecida como Revolução Farroupilha.

A Casa das Sete Mulheres é um romance que foi adaptado à televisão sob a forma de uma série de TV da Rede Globo. Quando vi a “novela”, em 2003, adorei e passei os 52 episódios agarrada a esta história de mulheres fortes e homens garbosos. Desde essa altura que tencionava ler o livro, mas a verdade é que nunca o vi à venda. Mais recentemente, nos últimos anos, procurei deliberadamente comprar uma cópia, mas não consegui encontrá-lo em lado nenhum. Tive imensa sorte em encontrá-lo no WinkingBooks, apesar de até o ler não saber bem quanta.
A verdade é que adorei este livro. A narrativa é deslumbrante e as personagens são magistralmente construídas. O ritmo da narrativa é por vezes errático, com avanços e recuos, pontos de vista da guerra e notícias que chegam de boca em boca, e cartas que são lidas antes dos acontecimentos que descrevem nos serem contados. A narração do ponto de vista de várias personagens é intercalada com os cadernos de Manuela, a protagonista e eterna Noiva de Garibaldi, que por sua vez tanto se referem ao tempo passado na estância como têm lugar décadas depois da guerra.
A escrita de Letícia Wierzchowski é deliciosamente descritiva. Quando lemos as linhas que enquadram a vida na estância quase que sentimos o vento minuano a soprar, os cheiros das plantas e o tom amarelo da paisagem. Quando nos é permitido visitar o cenário da guerra, as descrições são detalhadas e precisas, mas sempre incrivelmente bem escritas, numa prosa quase poética.

Sendo uma fan dos romances históricos, adoro a concretização do perfeito compromisso entre verdade histórica e o romance e a ficção. Este livro trouxe-me isso mesmo.
Além de um entretenimento viciante e ser praticamente uma “degustação” da linguagem, é também uma boa dose de História, que adorei experienciar.
Dei por mim a pesquisar na net mais informação sobre esta época da História brasileira, de tal forma a escrita me cativou para este tema. Além de ficar com uma noção bastante precisa do que significou este período da História do Brasil, e de me ter apaixonado pelas personalidades que lhe deram forma, senti-me conquistada pela riqueza da Língua Portuguesa. Neste livro deparei-me com imensas expressões regionais do Rio Grande do Sul, algumas usadas ainda hoje, que no português de Portugal são consideradas arcaicas. Deliciei-me com esta linguagem, e de facto o português é uma língua tão rica que é uma pena que algumas palavras deixem ter utilização corrente por cá.

A história começa com o convergir das personagens nos campos que vão constituir as duas frentes do rumo dos acontecimentos: enquanto os homens da família de Bento Gonçalves, o líder da Revolução Farroupilha, se reúnem para a guerra que se aproxima, as mulheres viajam das suas casas na cidade para se refugiarem da guerra na Estância da Barra, propriedade de D. Ana Joaquina, irmã de Bento Gonçalves. Com D. Ana viajam a irmã mais nova, D. Maria Manuela, e as suas três jovens filhas, Rosário, Mariana e Manuela. Juntamente com a cunhada D. Caetana, esposa de Bento, a filha mais velha, Perpétua e os 4 filhos crianças. Estas são as 7 mulheres que vão passar os anos da guerra numa estância no pampa gaúcho (juntamente com D. Antônia, irmã mais velha de Bento, Ana e Maria, proprietária da Estância do Brejo, a poucos minutos a cavalo da Estância da Barra). A história termina com o final da guerra, que se arrastou por 10 longos anos. Dez anos repletos de tristezas próprias da guerra, algumas alegrias, e principalmente acontecimentos que mudaram de forma irrevogável as vidas destas mulheres e da sua família.
O destino desta família é o reflexo do que aconteceu no Rio Grande nestes dez anos, uma região que não voltou a ser a mesma, tal como as pessoas que viveram esta guerra. O que aconteceu nestes dez anos, terão de descobrir por vós próprios. É um livro que recomendo sem reservas.

Uma nota final para referir que descobri no final da leitura que existe uma continuação publicada. Um Farol no Pampa é a continuação escrita por Letícia Wierzchowski, que infelizmente não está publicada em Portugal, mas que quero muito ler (e penso que será quase impossível encontrar A Casa das Sete Mulheres à venda nas livrarias, por isso não espero uma edição portuguesa). Estou a pensar mandar vir pela Wook a versão brasileira.


Opinião escrita pela Cat SaDiablo, do blog A Bibliófila. Foi um prazer corresponder-me com ela e tudo por causa de um post! :D

24 de janeiro de 2011

Verdade ou Consequência? (1)

Uma História da Leitura

Tenho a sorte de poder inaugurar neste blogue que tanto aprecio uma nova rubrica, que irá certamente ajudar a promover a colaboração entre os blogues literários portugueses. Perante o desafio que me foi colocado, escolhi Consequência e a WhiteLady sugeriu-me o tema “Autores Sul-Americanos”. Tenho por ler vários livros de autores provenientes da América do Sul, mas de imediato fiquei indecisa entre o Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez ou Uma História da Leitura, de Alberto Manguel. Por termos concordado que este último é um livro pouco divulgado por cá e por estar com vontade de lhe pegar, escolhi então Uma História da Leitura.

Esta é uma história da leitura, porque decerto muitas existem. Nós próprios estamos a construir a história da leitura, sempre em constante evolução e mutação. Porque data de 1996, este livro não inclui referência às recentes evoluções no que respeita à leitura digital; contudo, todos os séculos que antecedem essa data são mais que fertéis em acontecimentos e personagens que fizeram de nós os leitores que somos hoje.

O livro encontra-se dividido em 3 partes: na primeira, o autor fala-nos um pouco sobre a sua experiência como leitor e sobre a importância que os livros tiveram no seu crescimento. Uma das curiosidades é o período durante o qual leu em voz alta para Jorge Luis Borges, quando o famoso escritor argentino estava já quase completamente cego e, por isso, impedido de ler sozinho.

A segunda e terceira partes, entituladas respectivamente “Actos de Leitura” e “Poderes do Leitor”, não consistem num relato ordenado temporalmente; temos antes uma espécie de divisão temática, com sub-capítulos dedicados a um determinado assunto, nos quais o autor faz diversas referências históricas e acrescenta, quase sempre, alguns detalhes sobre a sua experiência pessoal no que respeita ao tema em causa.

Ao longo do livro temos oportunidade de aprender mais sobre a forma como a escrita se foi adaptando à forma de leitura, pois ao passar-se da leitura em voz alta para a leitura silenciosa tornou-se necessário detalhar mais os símbolos escritos, e introduzir a pontuação, por exemplo. Percebemos também como se foi alterando a memorização de textos ao longo do tempo, a evolução do formato dos livros (marcado pelo aparecimento da imprensa) ou a importância que foi ganhando a leitura como acto individual. Mas a análise histórica incide também sobre a forma como os livros foram sendo ordenados nas bibliotecas, o que determinado livro diz sobre o seu leitor, a invenção dos óculos ou a tradução “como acto supremo de compreensão”.

De um modo geral, é um livro interessantíssimo, repleto de referências e personagens históricas. Por vezes, tem tendência a tornar-se um pouco académico demais, exigindo por isso a máxima concentração da parte do leitor. Muitas referências históricas e literárias passaram-me ao lado devido à minha curta e ainda pouco vasta experiência como leitora, mas esse facto não tornou a leitura frustrante, antes deu-me ânimo para continuar a aprender. Diria que é preciso partir para esta leitura com o espírito certo, e se isso for conseguido, o mais certo é que este livro seja bastante apreciado.


Opinião escrita pela Célia, do blog Estante de Livros, a quem tenho de agradecer o incentivo e disponibilidade para ser a primeira vítima. :)

21 de janeiro de 2011

Nova rubrica - Verdade ou Consequência?


Esta rubrica nasceu de ideias e conversas com outros bloggers na tentativa de criar uma maior interacção entre blogs e dinamizar a blogosfera. Perante o que se faz lá fora, onde existem guest posts e guest reviews, pensei cá para comigo “então e se fizesse algo que englobasse ambos?” e eis que surgiu esta ideia.

Trata-se, basicamente, de um jogo. Convido alguém e faço-lhe a questão: “Verdade ou Consequência?”. Se escolher Verdade, essa pessoa tem de escrever um artigo sobre um qualquer assunto à sua escolha e com o qual se sinta à vontade, podendo discursar sobre o seu género preferido, um autor que recomende ou qualquer outro tema. Caso prefira Consequência tem de ler e escrever uma opinião sobre um livro dentro do tema que eu indicar. Estes serão algo vagos, podem mesmo tornar-se em desafios caso proponha um tema que não apreciem por aí além, mas tentarei ter em conta a lista de livros por ler do convidado.

Espero que apreciem este pequeno jogo. Se tudo correr bem terá periodicidade mensal.

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