A Midsummer Night's Dream
Nunca tinha lido nada de Shakespeare. Em minha defesa, devo dizer que a minha experiência com peças de teatro, nomeadamente "Felizmente há Luar" de Luís de Sttau Monteiro e "Look Back in Anger" de John Osborn não foi das melhores. Compreendo que tenha de haver livros de leitura obrigatória no ensino secundário (afinal é importante que os miúdos tenham hábitos de leitura, etc e blah blah), mas pessoalmente acho que darem-nos a ler este tipo de livros (e incluo os Maias, o Amor de Perdição e o Memorial do Convento do Saramago, que parece que é o livro que se lê hoje em dia em vez dos Maias ou da Aparição ou algo do género) é uma forma quase 100% efetiva de 1. fazer com que os miúdos detestem os livros e entrem na leitura (e saiam dela) a detestá-los e 2. Matar à nascença qualquer tipo de interesse que os já referidos miúdos possam ter pela leitura.
Mas enfim, isso é outro assunto que daria pano para mangas, mas que não é o assunto sobre o qual me vou pronunciar.
As peças de Shakespeare. Certo. Ora bem, não sou grandemente versada em literatura da época (século XVI). De facto, a única experiência que tive, que se pode comparar minimamente à leitura de uma peça de Shakespeare foi a leitura de uma peça de Gil Vicente na escola preparatória (será que ainda fazem destas hoje em dia? Mandar putos de 12 e 13 anos ler Gil Vicente?). Escusado será dizer que muito pouco me lembro do "Auto da Barca do Inferno", exceto que metia o Diabo e um Anjo e uma data de outras personagens.
Shakespeare, como se sabe, é um senhor muito conhecido atualmente e parece que também era na época. Escreveu uma data de peças de teatro que foram encenadas num teatro que parece, hoje é famoso (The Globe). A rainha Isabel I gostava muito de teatro, o teatro foi importante durante o seu reinado, etc e blah blah. Se virem o filme "A paixão de Shakespeare" vem lá tudo explicado.
Mesmo que nunca tenham lido nada de Shakespeare de certeza que já ouviram falar do Romeu e da Julieta, um dos casais fictícios mais famosos da História dos casais fictícios. Apaixonaram-se e tal, mas as famílias não os deixaram casar e não digo o resto porque é spoiler. De qualquer modo o Leonardo Di Caprio fez de Romeu numa adaptação cinematográfica desta peça por isso se não vos apetecer ler, podem ver o filme (diz que mete armas e gangues).
Com isto tudo já perceberam que sou quase totalmente ignorante em relação à obra de Shakespeare. Para além de conhecer os títulos das suas peças mais famosas (Romeu e Julieta, MacBeth e o Mercador de Veneza), pouco mais sei. Sei que ele era bem-parecido e que se apaixonou pela Gwyneth Paltrow (vi "A Paixão de Shakespeare" como toda a gente), no fim acabou por se casar com a Anne Hathaway (true story, vão ver à net) mas de resto... nada.
Então porquê ler Shakespeare, e esta peça (Sonho de uma Noite de Verão, em português) em particular? Bem, como sempre, começa tudo com outro livro. Ou mais especificamente com uma série. A série Iron Fey de Julie Kagawa. Nessa série há uma personagem chamada Robin Goodfellow. E de cada vez que ele é apresentado a alguém, esse alguém abre desmesuradamente os olhos e diz "O Robin Goodfellow? Puck? O que aparece em Sonho de uma Noite de Verão?" ao que o Robin responde inavariavelmente que sim senhora é ele mesmo. O famoso Puck.
Pois claro que tinha de ir ler a peça e ver como é que o Shakespeare caracterizava o famoso Puck.
E digo-vos; vale a pena ler Shakespeare. Especialmente se se tiver em conta a situação política e social da época. Segundo consegui apurar, Sonho de uma Noite de Verão é uma das peças mais "leves" deste autor, mas mesmo assim a irreverência da sua escrita é óbvia. Muito mesmo.
Esta peça passa-se em Atenas, e tem como protagonistas um grupo de personagens muito distintas: Theseus, herói e rei; Demetrius e Lysander os protagonistas masculinos e Hermia e Helena as heroínas. E claro, as fadas: Oberon e Titania e o servo daquele, Puck. Para além disso temos uma troupe de actores. Todas estas personagens se vão ver envolvidas num mal-entendido de proporções épicas quando Puck aplica uma poção do amor que gera confusão pois Demetrius e Lysander, ambos apaixonados por Hermia ficam de repente loucos por Helena. Titania também é afectada e apaixona-se por um humano (um dos membros da troupe) burro (literalmente). Isto dá origem a muitos actos de parvoíce por parte de todos os envolvidos.
A peça tem um ambiente etéreo (enfim, mete fadas) que me agradou imenso, e involve montes de gente a dormir por todo o lado. Talvez a mensagem seja "antes de te comprometeres por amor, dorme 12 horas e pode ser que ganhes juízo acordes com uma nova perspectiva"? Quem sabe.
Não sei bem quais os temas retratados nesta peça. Li-a por diversão, por curiosidade. Posso talvez aventurar-me a dizer que o tema é basicamente as parvoíces e actos irreflectidos que cometemos e a que nos sujeitamos por amor. Pois não diz Puck:
"Lord, what fools these mortals be!"
Shakespeare escreve de forma humorística e inteligente; mesmo tendo em conta o facto de que é uma peça, cujo objetivo é ser representada, lê-se extremamente bem. Claro que me custou um pouco a entrar na leitura porque a linguagem é um pouco diferente daquilo a que estou habituada. Mas é uma leitura que recomendo a quem queira passar um bom bocado e queira ler sobre heroínas que demonstram mais carácter e força do que muitas das escritas por autoras do século XXI (o que é extremamente triste).
Posso até dizer que para além de Puck (que admite que a confusão por ele criada o diverte imenso), a minha personagem preferida é a Helena. Sim, ela rebaixa-se por amor a Demetrius, mas apenas nos seus termos. Não deixa que a gozem. É uma mulher forte. O seu amor impressionou até Oberon.
Gostaria imenso de ver esta peça, mas alas, enquanto tal oportunidade não surge posso apenas ler e recomendar a obra de Shakespeare. Afinal, "antigo" não é, de todo, sinónimo de "aborrecido".
Esta opinião foi escrita pela Slayra do blog Livros, Livros e mais Livros que, de repente e sem se aperceber, contribuiu para a temporada Shakespeariana e fez-me rir que nem perdida no trabalho quando recebi o seu texto, que me levou logo a imaginar o Shakespeare casado com a Catwoman, e o comentário "diria que estavam todos 'on speed' nesta peça se o speed já tivesse sido inventado." xD













