2 de julho de 2012

Verdade ou Consequência? (7)

Lady Macbeth

Li esta peça há dois anos, por auto-recriação minha e como me foi dada a oportunidade de escrever sobre o tio Shakes através do convite da dona deste blog, foi mais ou menos fácil decidir-me sobre que peça iria escrever!

Macbeth, ou The Tragedy of Macbeth, é a peça mais curta de Shakespeare e é também a mais violenta, sangrenta e obscura que ele escreveu. Fala-nos de ambição desmedida, de traição, crueldade e culpa, com um ambiente sobrenatural que torna certos momentos da peça ainda mais tensos e obscuros. De forma resumida, Macbeth fala-nos de um homem, Macbeth, que está disposto a matar o rei da Escócia para lhe usurpar o trono. Consequentemente, Macbeth passa a ser um homem atormentado pela culpa dos seus actos e acaba como um homem completamente paranóico em relação a todos os que o rodeiam e tirânico. Contudo, houve uma personagem em particular que me impressionou em toda a peça: Lady Macbeth.

A primeira vez que ela aparece é no acto I, cena 5 e é nesta cena que ela faz talvez o seu discurso mais marcante e o discurso mais perturbador que eu já li. E para vos dar um cheirinho, aqui fica um pouco:

"Come, you spirits
That tend on mortal thoughts, unsex me here
And fill me, from the crown to the toe, top-full
Of direst cruelty. Make thick my blood,
Stop up th'access and passage to remorse,
[...]
Come to my woman's breasts,
And take my milk for gall, you murd'ring ministers,
Wherever in your sightless substances
You wait on nature's mischief."

"Unsex me"?! Bitch is crazy... Agora falando a sério, isto não é perturbador? Esta mulher, cheia de ambição desmedida, ainda mais vil que o seu marido, pede que lhe sejam retiradas todas as características que estão associadas às mulheres e que as tornam, supostamente, seres mais sensíveis e frágeis. Ela não quer ter qualquer qualidade que a possa levar a fraquejar. Quer, essencialmente, ser preenchida pela mais terrível crueldade. Lady Macbeth chega a questionar a masculinidade do marido sempre que a mente dele sente remorsos em relação a algo; ela domina-o, é impiedosa e no fim é a culpa e a visão de todos os seus actos que a levam à loucura e ao seu final trágico. Para a época, Lady Macbeth terá sido uma personagem algo polémica, uma vez que, sendo mulher, ela não tem um traço de feminilidade no que diz respeito às suas acções. Ela pede a um poder sobrenatural que lhe retire as características femininas porque se prepara para actos cruéis, associados ao masculino e, por isso, ela tem que cortar todos os laços que a ligam, mentalmente e emocionalmente, aos aspectos femininos. O sexo é algo físico, nascemos homens ou mulheres; mas o género é uma característica mental e, nesse aspecto, Lady Macbeth tem um pensamento mais associado ao masculino. Há críticos, inclusive, que a consideram a verdadeira instigadora de toda a violência na peça e, para mim, ela é a impulsionadora de todos os momentos cruciais da história. O que é que eu tenho a dizer sobre isto? Que a senhora Macbeth era uma mulher perturbada e que Shakespeare era um génio.

Nesta medida, acho que vale a pena referir aqui duas pinturas que ilustram o poder de Lady Macbeth tanto na peça como sobre o seu marido. A primeira é da autoria do pintor Henry Fuseli e intitula-se Garrick and Mrs. Pritchard in Macbeth (1812). Para dar um pouco de contexto, o momento em que se baseia esta pintura é retirado do acto II, cena 2 e diz assim:

Lady Macbeth: Go get some water,
And wash this filthy witness from your hand.
Why did you bring these daggers from the place?
They must lie there: go carry them, and smear
The sleepy grooms with blood.

Macbeth: I'll go no more:
I am afraid to think what I have done;
Look on't again I dare not.

Lady Macbeth: Infirm of purpose!
Give me the daggers."

Garrick and Mrs. Pritchard in Macbeth
de Henry Fuseli
Não vou fazer nenhuma análise académica sobre o quadro, mas é bastante claro que Lady Macbeth se encontra numa posição dominante e de poder, em oposição ao coitado do marido que parece ter medo da própria mulher e parece estar horrorizado com o acto que acabou de cometer, uma vez que as adagas estão ensanguentadas. O facto de parecerem duas figuras fantasmagóricas num fundo negro, penso que transmite a obscuridade da peça, o ambiente tenso e sobrenatural e os actos sangrentos que vão sendo cometidos durante a peça.

Ellen Terry as Lady Macbeth
de John Singer Sargent
O segundo quadro é de John Singer Sargent e intitula-se Ellen Terry as Lady Macbeth (1889). Ellen Terry foi uma actriz de teatro inglesa e que se tornou famosa por ser uma das melhores actrizes Shakespearianas, no século XIX. Neste quadro em particular, vemos Ellen Terry como Lady Macbeth. Quando vi este quadro lembrei-me imediatamente do discurso do "Unsex me here". Ela está altiva, imponente, o seu olhar parece em transe e está com a coroa nas suas mãos, símbolo da sua ambição pelo poder real. Acho que mais do que ser rainha, ela queria era ser rei e aqui, mais uma vez, se impõe a questão entre sexo e género. Um outro pormenor importante é o cabelo ruivo. O cabelo ruivo estava associado às bruxas, a mulheres sedentas de luxúria nas quais não se podia confiar por representarem uma ameaça aos homens. Não referi antes, mas Macbeth e a sua mulher tinham uma relação essencialmente sexual e era dessa forma que ela o convencia a actuar de determinada maneira. E aqui encaixa tudo, não encaixa?

Existem mais quadros que retractam esta peça e outras personagens também. Mas estes dois, para além dos quadros que retractam as três bruxas, foram os que mais me marcaram pela mulher que evocam, pela violência, crueldade e ambição associadas a ela. Confesso que em termos de adaptações de Macbeth para filme nunca vi nenhuma. Mas também, com tanta superstição associada a ela, não me espanto muito... Mas no youtube podem encontrar vídeos de representações teatrais de algumas cenas da peça, entre as quais contracenam Judy Dench e Sir Ian McKellen. Aqui fica a excepcional Judy Dench na já referida cena 5 do primeiro acto (no spoilers):



Este artigo foi escrito pela Diana do blog Papéis e Letras, que apoiou a temporada Shakespeariana, leu o Hamlet ao mesmo tempo que eu, está quase sempre disponível para falar sobre o tio Shakes (e sotaques britânicos, e homens britânicos, e espadas britânicas, e... acho que já perceberam a ideia) e já escreveu trabalhos sobre tudo e mais alguma coisa. :D

3 comentários:

Diana Marques disse...

Ainda não tinha visto isto aqui! Gostei especialmente da parte: "e já escreveu trabalhos sobre tudo e mais alguma coisa." LOL Lá calha... xD

E sim, tudo o que é britânico, contem comigo! Bring it on! \o/

WhiteLady3 disse...

Lembrei-me da conversa do outro dia, em que disseste que tinhas feito um trabalho sobre o Frankenstein. xD

Alékis Moreira disse...

gostei do blog. quando puder dá uma conferida no meu: http://alekismoreira.blogspot.com.br/

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