10 de outubro de 2009

O Império dos Pardais

Autor: João Paulo Oliveira e Costa
Género: Romance histórico
Editora: Círculo de Leitores | Nº de páginas: 516
Nota: 4/5

Resumo (da badana): Um romance histórico que tem como pano de fundo a afirmação do Império Português, o império dos pardais, durante o reinado de D. Manuel I e se centra em torno de cinco personagens principais que se movem dentro da lógica do mundo da espionagem. A personagem central é uma espia excepcional que pensa abandonar uma vida dedicada à violência e à satisfação de instintos primários, em que fora forçada a entrar, para recuperar uma vida social normal ao lado de um artista talentoso, apaixonado e ingénuo. A sua luta interior (contra hábitos sedimentados por quinze anos de isolamento, de rancor, de secretismo e de memórias perturbadoras) e o seu esforço para se libertar dos seus antigos mandantes percorrem toda a narrativa. A vida desta mulher cruza-se com a de dois supostos responsáveis pelos serviços secretos de D. Manuel I e amigos pessoais do rei. Ao acompanhar os encontros e desencontros, o leitor vive as cores, os aromas e os quotidianos de um tempo extraordinário em várias cidades e portos por onde vão passando e vivendo as personagens deste romance, que homenageia um povo e um rei.

Opinião: Devo começar por dizer que conheço o autor, já que foi meu professor de História Moderna e orientou um trabalho que tive de fazer para a cadeira de Génese da Expansão Portuguesa, além disso sei que está ligado ao Centro de História de Além-Mar (CHAM), também dava aulas relacionadas com Japão e é biógrafo de D. Manuel I, tendo escrito o livro sobre este que se insere na colecção “Reis de Portugal”, que coordena com Artur Teodoro de Matos (já li alguns e aconselho). Por isso não é de estranhar que esta história se desenrole em pleno reinado de D. Manuel I.

Seguimos três personagens (eu sei que a sinopse diz 5, mas na verdade eu julgo que apenas 3 são realmente importantes) que se encontram ao serviço de el-rei, espiando e trabalhando nas sombras para um maior esplendor de D. Manuel e do reino de Portugal, que é então comparado com pardais, metáfora explicada na frase inicial do livro:
O Rossio animava-se com o movimento das pessoas. Um bando de pombos esvoaçava incomodado por umas gaivotas atrevidas que haviam deixado a proximidade do Tejo para entrar nos seus domínios; pequenos pardais aproveitavam aquele alvoroço para debicar migalhas perdidas pelo chão, ocupando por sua conta uma das esquinas da praça e espalhando-se por algumas ruas laterais. Miguel observava aqueles pequenitos vivaços que evitavam os conflitos entre os maiores e que se fortaleciam enquanto os outros se desgastavam. Com um sorriso nos lábios pensava: «É assim que os pardais constroem seus impérios.»
E é isto que o autor nos mostra, a política de D. Manuel para a expansão marítima portuguesa, numa altura em que os reinos da Cristandade se envolviam em guerras no continente europeu, deixando a Portugal todo um mar por explorar e assim cimentar relações e influência, que permitiram que Portugal mantivesse os seus domínios ultramarinos mesmo depois de ingleses e holandeses se começarem a interessar pelas Índias Ocidentais e Orientais e ameaçarem a exclusividade portuguesa.

Temos portanto um retrato da política na época, tanto da política portuguesa, com os jogos de corte e inclusive como D. Manuel conseguiu ascender ao trono, como estrangeira, onde para além de aproveitar os tais conflitos, agentes portugueses tiveram de se empenhar em confundir e mesmo enganar e matar para manter em segredo algumas das terras descobertas e por explorar, como o Brasil.

Achei as personagens bastante interessantes e gostei de como o seu passado nos é apresentado, tornando-as bastante ricas. O retrato da vida na época, nomeadamente o retrato que o autor nos apresenta da cidade de Lisboa, é bastante colorido. Ri-me com diversas personagens e algumas passagens. Por exemplo, adorei o facto de um dos personagens ter um papagaio chamado Eusébio, que estava treinado para dizer “Benfica” e “mata o dragão”, assim como achei curioso o jogo da bola entre um grupo de Benfica e outro de Alvalade e do Lumiar. Gostei do diálogo entre Rui de Pina e Damião de Góis, nomeadamente do desabafo do primeiro no final do dito diálogo; e gostei também da perspicaz Beatriz, filha de um dos personagens principais, mas fiquei um pouco desiludida ao não saber o que o futuro lhe reservou, quando ficamos a conhecer o de seu irmão Rodrigo. No que toca à linguagem, tem alguns termos arcaicos, demorei um pouco a perceber a que se referia o ganda, mas penso que enriquece a obra já que também nos leva para a época em que decorre a acção.

Apesar de a história se centrar no reinado de D. Manuel, o final passa-se já nos últimos anos do reinado de D. João III e não deixei de achar curioso o facto de, já naquela época, considerarem que Portugal havia perdido o esplendor de outrora, sendo necessário um personagem dinamarquês para lembrar outros feitos, talvez não tão grandiosos, mas que mantiveram Portugal como uma peça importante no comércio europeu e para nos avisar de um perigo que viria a concretizar-se nos anos seguintes.

Sem dúvida um livro aconselhado a quem goste de romances históricos e sobretudo deste período.

13 comentários:

Homem do Leme disse...

Também li este livro e gostei muito.

slayra disse...

Tenho de ler este! ^__^ Fiquei interessada, e já vi uma versão paperback muito em conta na Bertrand... mwahahahah!

Canochinha disse...

Ora aqui está um livro que me passaria completamente ao lado se não falasses nele. Parece-me muito interessante! Há versão de bolso?

slayra disse...

Não, versão de bolso ainda não. Mas há uma capa mole (grandinha) a 19 euros (ao invés dos 21 e qualquer coisa que se pagaria ao Círculo por uma capa dura).

Canochinha disse...

Ah, desculpa... li versão bolso em vez de versão paperback :P

WhiteLady3 disse...

Homem do Leme, por acaso li a tua crítica antes de o começar a ler. :D

Slayra, bem me parecia que o teu "em conta" é ainda "um pouco caro" para mim. :D Mas é um facto que raramente o encontro em livrarias, só o encontrei na biblioteca que isso sim, é em conta. :P

Canochinha, como a Slayra disse, versão de bolso não, mas não me importava que fizessem, assim como fizeram com o 1808.

slayra disse...

E achas que para mim não? :o Por acaso, a capa dura no Círculo é mais barata do que estava à espera... 17 euros e tal. Se calhar vou encomendar ao Círculo. ^^

Mas ainda continuam a ser todos demasiado caros para o meu gosto. Se houvesse uma versão inglesa acredita que comprava essa. ^^

Iceman disse...

Fiquei interessado no livro, parece-me de facto um belo romance Histórico.

Milly - Loucos Devaneios Literários disse...

Nossa!
Adorei!
Beijos*

JM disse...

Concordo plenamente com a tua análise (bem verdade que alguns termos arcaicos da época às vezes atrapalham). Vale MESMO a pena ler e apoiar o romance histórico em português.
Bem sei que o livro é caro; tive a sorte de encontrar o meu exemplar em 2ª mão (novinho, devo acrescentar) na feira de usados do Chiago (todos os sábados, das 09 às 15, na Rua da Anchieta).
Tentem, pode ser que apareçam mais!

http://favouritereadings.blogspot.com/

JM disse...

Debitar é mesmo A palavra certa.. Por acaso li o Codex 632 (saltei algumas páginas) e A Vida Num Sopro (menos denso e com descrições até interessantes acerca da Guerra Civil Espanhola). Obrigada pela tua visita. Vai passando ;) Também vou estando atenta às tuas novidades.

Diana disse...

Passei aqui para dizer que tens um selinho à espera no meu blog ;)

Continuação de boas leituras!

Ana T. disse...

Gostei muito da tua crítica, vai já para a WL. Obrigada!

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